October 3, 2011
Festa do Qoyllor Riiti

Por Sônia Bridi

A vista da festa é deslumbrante: no meio do nada, uma metrópole formada por barracas de plástico azul, fervilhando com trinta mil almas em busca de salvação. O acampamento monstruoso está a 4.700 metros de altitude. O ar, cheio de música, na cacofonia gostosa de muitas bandas que tocam ao mesmo tempo. Atravessamos por entre as barracas num chão úmido, cheio de uma espécie de musgo crescendo nas pedras. Em alguns pontos o musgo deixa o chão fofo. Apeei e agora caminho até a beira de um rio de água leitosa vinda da geleira.  Aqui está a nossa barraca. Mal temos tempo para inaugurar a barraca-banheiro (uma privadinha com um saco de lixo dentro) e seguir filmando a cerimônia mais incrível que já testemunhei.

          Logo acima está a montanha de Ausangate, com seu pico nevado. Descendo em nossa direção, filas e mais filas de peregrinos: as irmandades, que passaram a noite no meio do gelo numa cerimônia misteriosa. Cada uma dessas confrarias tem sua própria banda e porta estandartes com imagens de santos, símbolos incas, e a bandeira do arco-íris – a de Cusco, não a do movimento gay.  Eles vêm dançando sem parar, girando um pano branco nas mãos. As irmandades são lideradas pelos Okukos, ou Pablitos, que têm origem mitológica: seriam meio homens, meio ursos. Eles usam a roupa ritual, uma veste grande, escura, com franjas, e carregam chicotes nas mãos, para disciplinar quem se comporta de forma inadequada, como, por exemplo, manter o chapéu na cabeça. A cada vez que um passa, rapidinho tiro minha touca, para logo depois botar de volta. Está cinco graus negativos e não quero ter uma hipotermia, mas também não me arrisco a ser chicoteada. Estamos no Vale de Sinakara, com mais de 30 mil pessoas, e provavelmente não há mais de dez brancos por aqui. Roupa, tamanho, cor, tudo em mim denuncia minha identidade. Por onde passo, ouço gritinhos: 

 Mira, una gringa! 

         E eu, rapidinho, tiro o chapéu. Forasteiros não são bem vindos porque geralmente não sabem respeitar a tradição. De qualquer maneira, inexplicavelmente, poucos brancos sabem da existência desta festa e pouquíssimos se aventuram neste vale perdido.

         No alto da geleira algumas confrarias ainda estão sentadas na neve, em círculos, o estandarte fincado no chão como bandeira de conquistador. Os peregrinos dizem que debatem sobre a vida. Outros contam que estão fazendo a iniciação de novos Okukos. Os que são aceitos, vemos quando chegam aqui embaixo, são chicoteados. Okuko não é posto para gente frouxa. As roupas usadas por eles são muito variadas, de acordo com a região e a origem étnica de cada povo. Algumas congregações são de mulheres. Elas vestem saias pretas e vermelhas, usam as longas tranças enfeitadas com fitas e caminham de mãos dadas. São mais comedidas do que os homens.

         A batida de tambores, o ritmo das danças, tenho a impressão de que estão todos numa espécie de transe, como monges que repetem mantras sem parar. Eles só desviam o olhar perdido ao ver a ameaça de um chicote de okuko para quem sai da linha. Passado o limite do acampamento, vemos de onde vem tanta água: é o gelo derretido, que corre em pequenos riachos.  Essa gente virou a noite no frio de até quinze graus negativos lá em cima, no gelo, e muitos sequer têm meias nos pés! Os pés expostos nesse gelo me fascinam. No chão encharcado aqui embaixo, os pés calosos, cheios de rachaduras, parecem impermeáveis.

         O chefe do grupo de Aymaras – a cara do Hugo Chaves - dá um depoimento seco e triste. Conta que em sua vila no Altiplano já falta água e aqui ele entende por quê. A geleira, que vinha até onde estamos, agora para um quilômetro montanha acima.

Nossos ancestrais nos deixaram este costume. A nação de Paucartambo é a mais antiga, a primeira que veio inclinar-se diante do Senhor de Qoillor Ritii.

Uma pausa dramática, como só os andinos sabem fazer, e ele continua:

Por isso fui um dos primeiros a defender que não se retire mais o gelo. A cerimônia continua, O Qoyllor Ritii continua, mas o gelo fica aqui.

*Sônia Bridi é mãe dedicada, amiga de todas as horas, mulher de um humor incrível, autora do livro Laowai,  tem o jornalismo em suas veias, repórter especial do Fantástico.Bridi é única por excelência!

* A jornalista Sônia Bridi e o repórter cinematográfico Paulo Zero viajaram 12 países para conhecer os lugares mais ameaçados pelo aumento da temperatura. A série Terra- que tempo é esse? foi exibida no Fantástico em 2010 e os bastidores dessas reportagens darão origem ao livro “Diário do Clima” - que será lançado em 2012.

 

 

                               

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