Por Sônia Bridi
Logo acima está a montanha de Ausangate, com seu pico nevado. Descendo em nossa direção, filas e mais filas de peregrinos: as irmandades, que passaram a noite no meio do gelo numa cerimônia misteriosa. Cada uma dessas confrarias tem sua própria banda e porta estandartes com imagens de santos, símbolos incas, e a bandeira do arco-íris – a de Cusco, não a do movimento gay. Eles vêm dançando sem parar, girando um pano branco nas mãos. As irmandades são lideradas pelos Okukos, ou Pablitos, que têm origem mitológica: seriam meio homens, meio ursos. Eles usam a roupa ritual, uma veste grande, escura, com franjas, e carregam chicotes nas mãos, para disciplinar quem se comporta de forma inadequada, como, por exemplo, manter o chapéu na cabeça. A cada vez que um passa, rapidinho tiro minha touca, para logo depois botar de volta. Está cinco graus negativos e não quero ter uma hipotermia, mas também não me arrisco a ser chicoteada. Estamos no Vale de Sinakara, com mais de 30 mil pessoas, e provavelmente não há mais de dez brancos por aqui. Roupa, tamanho, cor, tudo em mim denuncia minha identidade. Por onde passo, ouço gritinhos:
Mira, una gringa!
E eu, rapidinho, tiro o chapéu. Forasteiros não são bem vindos porque geralmente não sabem respeitar a tradição. De qualquer maneira, inexplicavelmente, poucos brancos sabem da existência desta festa e pouquíssimos se aventuram neste vale perdido.
No alto da geleira algumas confrarias ainda estão sentadas na neve, em círculos, o estandarte fincado no chão como bandeira de conquistador. Os peregrinos dizem que debatem sobre a vida. Outros contam que estão fazendo a iniciação de novos Okukos. Os que são aceitos, vemos quando chegam aqui embaixo, são chicoteados. Okuko não é posto para gente frouxa. As roupas usadas por eles são muito variadas, de acordo com a região e a origem étnica de cada povo. Algumas congregações são de mulheres. Elas vestem saias pretas e vermelhas, usam as longas tranças enfeitadas com fitas e caminham de mãos dadas. São mais comedidas do que os homens.
A batida de tambores, o ritmo das danças, tenho a impressão de que estão todos numa espécie de transe, como monges que repetem mantras sem parar. Eles só desviam o olhar perdido ao ver a ameaça de um chicote de okuko para quem sai da linha. Passado o limite do acampamento, vemos de onde vem tanta água: é o gelo derretido, que corre em pequenos riachos. Essa gente virou a noite no frio de até quinze graus negativos lá em cima, no gelo, e muitos sequer têm meias nos pés! Os pés expostos nesse gelo me fascinam. No chão encharcado aqui embaixo, os pés calosos, cheios de rachaduras, parecem impermeáveis.
O chefe do grupo de Aymaras – a cara do Hugo Chaves - dá um depoimento seco e triste. Conta que em sua vila no Altiplano já falta água e aqui ele entende por quê. A geleira, que vinha até onde estamos, agora para um quilômetro montanha acima.
Nossos ancestrais nos deixaram este costume. A nação de Paucartambo é a mais antiga, a primeira que veio inclinar-se diante do Senhor de Qoillor Ritii.
Uma pausa dramática, como só os andinos sabem fazer, e ele continua:
Por isso fui um dos primeiros a defender que não se retire mais o gelo. A cerimônia continua, O Qoyllor Ritii continua, mas o gelo fica aqui.
*Sônia Bridi é mãe dedicada, amiga de todas as horas, mulher de um humor incrível, autora do livro Laowai, tem o jornalismo em suas veias, repórter especial do Fantástico.Bridi é única por excelência!
* A jornalista Sônia Bridi e o repórter cinematográfico Paulo Zero viajaram 12 países para conhecer os lugares mais ameaçados pelo aumento da temperatura. A série Terra- que tempo é esse? foi exibida no Fantástico em 2010 e os bastidores dessas reportagens darão origem ao livro “Diário do Clima” - que será lançado em 2012.